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Educação para o consumo consciente: Iniciativas e programas educacionais que visam promover a conscientização e mudança de comportamento em relação ao consumo.

Com 9 em cada 10 brasileiros acreditando que o consumo consciente pode fazer a diferença, projetos de educação ambiental são vistos como o primeiro passo para uma geração mais responsável.

Por Isadora Gonçalves

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Oficina de Educação Ambiental realizada na Escola Municipal Dante Jaime Brochado. Foto: Arquivo Pessoal.

“Com a educação sobre consumo consciente, os alunos se sentem valorizados pela oportunidade de atuarem como protagonistas nas ações propostas pela equipe”, constata a diretora da Escola Municipal Engenheiro André Rebouças, Adriana Pires, 52. Em um país onde, a menos de 6 anos da data prevista pela Agenda 2030,  60% das metas de desenvolvimento da ONU tiveram retrocesso em comparação com 2015, de acordo com o Grupo de Trabalho sobre o tema, diferentes setores da sociedade civil buscam fazer a diferença, começando com as suas comunidades. 

 

O consumo sustentável, por definição do Portal da Câmara dos Deputados, é “a prática de repensar os hábitos de consumo promovendo um estilo de vida mais sustentável e equilibrado. Trata-se de consumir de forma responsável, considerando o impacto positivo ou negativo que nossas escolhas provocam no meio ambiente, na economia e na sociedade”. Essa prática possui grande ligação com o Objetivo de Desenvolvimento Sustentável (ODS) 12 da Agenda 2030, que trata sobre “consumo e produção responsáveis”. Entretanto, assim como diversos outros temas relacionados à responsabilidade social, ele se intersecciona com outras metas, incluindo o ODS 4, “educação de qualidade”.

 

Em um mundo onde o equilíbrio entre o crescimento econômico e a preservação ambiental se torna cada vez mais urgente, promover o consumo consciente emerge como uma ferramenta fundamental para a construção de um futuro sustentável. Essa é a visão compartilhada pela mestre em Biodiversidade e Conservação da Natureza, Valéria Costemalle. 

 

De acordo com a especialista, integrar o consumo consciente em projetos e iniciativas voltadas para esse desenvolvimento oferece uma série de vantagens: "Redução do desperdício, economia de recursos, estímulo à economia local, preservação do meio ambiente, responsabilidade social, inovação e empreendedorismo, e resiliência econômica são apenas algumas das consequências positivas", enfatiza Valéria.

 

A colaboração entre profissionais de diferentes áreas desempenha um papel crucial nesse processo. A relação entre conservação da natureza e economia abre portas para soluções inovadoras que equilibram a proteção ambiental com o desenvolvimento econômico sustentável. Essa abordagem integrada é fortalecida pela participação de jornalistas, gestores e outros atores da sociedade, que se unem para promover um consumo mais responsável e consciente.

Mas como sensibilizar as pessoas sobre a importância do consumo consciente? Estratégias educacionais desempenham um papel fundamental nesse sentido. A especialista destacou a importância da educação ambiental, experiências práticas, campanhas de conscientização e colaboração interdisciplinar como formas eficazes de engajar o público e promover mudanças de comportamento.

 

O papel dos projetos educacionais na conscientização

 

A missão do Recicle, um dos projetos de extensão da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) desde 2015, é mobilizar e conscientizar a sociedade sobre a gestão ambiental e o consumo consciente. Segundo o coordenador do projeto e professor do Departamento de Engenharia Sanitária, Samuel Castro, a conscientização sobre o tema é uma consequência direta da construção da responsabilidade ambiental estimulada em todas as ações do projeto, como: “Soluções integradas e ambientalmente adequadas de gerenciamento de resíduos e planejamento urbano por meio da mobilização e conscientização social”.

 

Para eles, as práticas andam em conjunto com a difusão das técnicas sustentáveis através de uma rica troca de saberes, inclusive pela educação ambiental. Esse último setor é colocado em ação através da proposta de levar para as escolas do município de Juiz de Fora a conscientização dos alunos sobre o compartilhamento da responsabilidade ambiental, em busca de estimular a formação de agentes transformadores da realidade social.

 

A bolsista do projeto, Talita Silva, espera que as ações realizadas pelo Recicle sejam capazes de integrar ao ambiente estudantil as práticas de consumo sustentável, começando com ações básicas como a segregação dos resíduos sólidos e melhoria dos índices de coleta seletiva nas áreas de entorno da instituição. E destaca que para que ações como essas sejam praticadas a longo prazo, trazendo uma evolução para o espaço em que os agentes estão inseridos, é preciso centralizar o trabalho de compreensão da coletividade como primordial dentro do processo: “Necessitamos do engajamento das escolas, de modo que as temáticas ambientais sejam inseridas de forma inter, multi e transdisciplinar no cotidiano, aumentando o sentimento de pertencimento dos discentes, membros da gestão, colaboradores, pais e familiares ao meio ambiente, e, por conseguinte, disseminando a responsabilidade compartilhada e a reflexão acerca do consumo consciente”.

Projeto de composteira realizado no Projeto Recicle​. Foto: Arquivo Pessoal

A educomunicadora e assistente de educação no Instituto Akatu, Bianca Coelho, 25, também ressaltou a importância de projetos como o do Instituto, que possui iniciativas voltadas para sensibilizar as pessoas sobre a importância de fazer escolhas éticas e sustentáveis em relação ao consumo: “Essa troca com os educadores dentro das formações nessa área de educação ambiental é o que mais me chama a atenção. O que me marca é poder trabalhar em conjunto e ver esses resultados positivos que também fazem muita diferença”.

 

Ela também destaca como é necessário que as ações não tenham uma “fórmula pronta”, já que o contexto precisa ser levado em consideração para que as práticas ambientais tenham uma aplicação eficaz. Dentro do Instituto, os grupos responsáveis pela realização dos projetos realizam um estudo das necessidades dos locais para que possam construir as ações em conjunto com os agentes daquele local: “Os jovens muitas vezes não se sentem pertencentes nos lugares que estão inseridos, seja na escola ou no próprio bairro, e consequentemente eles não veem esse poder autônomo, ativo, político que eles podem ter em diferentes espaços”.

 

Adriana, diretora do Colégio que recebeu uma oficina do Projeto Recicle, ressaltou como a posição de protagonismo dos alunos foi diferencial para o recebimento do tema: “Os alunos se reconhecem como co-responsáveis nesse processo e ainda atuam como multiplicadores desse conhecimento para outros alunos e outras pessoas”. 

 

O desafio está no engajamento

 

Entretanto, a educadora ainda destaca como é um desafio envolver toda a comunidade escolar nessa tarefa, por ser uma ação coletiva e que conta com a atitude de cada um que faz parte da rotina da escola.

 

Esse engajamento pode ser um dos grandes desafios na implementação a longo prazo do projeto. Para que ela ocorra como esperado, é preciso que “a operacionalização das ações permeie a troca de informações e saberes com o público-alvo de forma lúdica, com participação ativa dos estudantes”, constatou o também integrante do projeto e pós-graduando em Engenharia Civil, Pedro Ferreira.

 

Para Bianca, a sobrecarga da estrutura escolar também serve como um fator limitante para que os educadores possam explorar temas como o consumo consciente, uma vez que a falta de investimentos e tempo restringe a compreensão de onde a comunidade está inserida. Principalmente após o período pandêmico, em que as diferenças sociais se aprofundaram, é imprescindível realizar recortes sociais para tratar sobre o tema ambiental: “Vivemos em um cenário de desigualdade e precisamos compreender junto desses educadores e estudantes quais são as necessidades específicas e contextuais. Como podemos colaborar com as diferentes formações para além do currículo escolar?”.

 

Ela complementa que essa tomada de consciência sobre o papel que cada cidadão na conjuntura ambiental, deve ser feita no âmbito individual e coletivo, em conjunto com diferentes atores sociais: “Eu, enquanto cidadã, consigo colocar em prática pequenos atos no meu dia a dia que fazem a diferença, mas também estou ali para cobrar uma empresa para que tenha um posicionamento e hábitos mais sustentáveis, ou então cobrar a implementação de políticas públicas junto dessa educação ambiental”. 

 

Para a ecologista Valéria, o caminho para a integração efetiva da educação para o consumo consciente no currículo escolar brasileiro apresenta inúmeros desafios, como barreiras socioeconômicas, falta de políticas adequadas e cultura de consumo arraigada: “Superar esses desafios exigirá um esforço coordenado de diversas partes interessadas, incluindo o governo, o setor privado e a sociedade civil”.

Um investimento a longo prazo

Apesar dos desafios enfrentados, os resultados do projeto de Educação em Consumo Consciente têm sido notáveis na Escola Municipal Engenheiro André Rebouças. A diretora Adriana Pires destacou o impacto positivo que as palestras e atividades têm tido sobre os estudantes. Segundo ela, além do conhecimento teórico, houve uma clara mudança de atitude em relação ao consumismo e ao cuidado com o meio ambiente.

 

"A compreensão de que as ações individuais podem influenciar positivamente ou negativamente a conservação do meio ambiente, juntamente com a adoção de comportamentos mais saudáveis em relação ao consumo e ao lixo, são algumas das habilidades que os alunos estão desenvolvendo", afirma a diretora.

 

A parceria com o projeto de Consumo Consciente não só fortaleceu as ações ambientais da escola, mas também empoderou os alunos, que se sentem valorizados ao atuarem como protagonistas nas iniciativas propostas pela equipe. A abordagem coletiva e interdisciplinar adotada visa garantir que toda a comunidade escolar adote hábitos mais sustentáveis em relação ao consumo e ao meio ambiente.

 

A expectativa é que a inserção contínua da Educação Ambiental nas comunidades escolares contribua para melhorias significativas. No entanto, o desafio de não abordar a Educação Ambiental de forma isolada demanda o engajamento das escolas para que as temáticas ambientais sejam integradas de forma interdisciplinar no cotidiano, aumentando o sentimento de pertencimento e disseminando a responsabilidade compartilhada sobre o consumo consciente.

 

Para Bianca, essa troca mútua entre educadores e estudantes é essencial para construir novos cenários e alcançar resultados positivos socialmente. "De pouco em pouco a gente chega ‘lá’, e o ‘lá’ que eu quero dizer é uma sociedade menos desigual e com a perspectiva ambiental pautada no consumo consciente", ressalta.

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Créditos e Fontes:

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Valéria Costemalle

Mestre em Biodiversidade e Conservação da Natureza; Coordenadora de Projetos de Desenvolvimento Econômico Sustentável; Graduada em Jornalismo (UFJF) e Psicologia (UniAcademia)

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